Museu de Akhisar: arqueologia e etnografia no cruzamento das estradas do Egeu
Outrora, este edifício ouviu o choro de uma mãe que perdeu o filho, depois o eco dos sinos da escola e, mais tarde, o silêncio dos corredores vazios da residência dos professores. Hoje, sob as suas abóbadas, tique-taqueia um relógio bem diferente — o relógio de milhões de anos. O Museu de Akhisar (Akhisar Müzesi) fica em frente às ruínas da antiga Tiátira, na província de Manisa, e, no exato momento em que o visitante atravessa a soleira, começa uma viagem desde conchas fossilizadas com 18 milhões de anos até aos selos de prata do Império Otomano. O Museu de Akhisar não é um gigante metropolitano, mas sim um espaço intimista de 650 metros quadrados, onde estão reunidas 689 peças, cada uma delas literalmente retirada do solo da costa do Mar Egeu. É precisamente isso que o torna um dos museus regionais mais autênticos da Anatólia Ocidental: aqui não se traz de fora, aqui mostra-se aquilo que pertence à própria planície de Akhisar.
História e origem do Museu de Akhisar
A história do museu é inesperada, porque o edifício é mais antigo do que a sua função de museu — e é aí que reside o principal drama do local. Em 1932, Ayshe Aloglu, uma abastada residente de Akhisar, encomendou a construção de um hospital de dois andares em memória do seu filho Ali Shefik, falecido ainda muito jovem devido a uma doença. A clínica recebeu o seu nome — «Hospital Ali Şefik» — e, durante alguns anos, atendeu efetivamente pacientes. Posteriormente, a pedido das autoridades locais e com o consentimento de Ayşe, o edifício foi cedido ao Ministério da Educação e transformou-se numa escola secundária com o mesmo nome. Assim continuou até 1992.
Após a reabilitação em 1994, abriu-se aqui a Casa do Professor — Ali Şefik Öğretmenevi. Em 2005, as autoridades decidiram encerrar esta instituição, o que suscitou acesas discussões: a secção de Akhisar do sindicato Eğitim Sen acusou a administração de ter motivos políticos e levou as pessoas às ruas. Em resposta, os responsáveis anunciaram que o edifício se tornaria um museu — o que deveria enriquecer o património cultural da cidade. No entanto, a casa dos professores só fechou definitivamente em 2007, e a transformação prometida arrastou-se por muitos anos.
Havia várias razões pelas quais Akhisar precisava de um museu próprio. Em primeiro lugar, os depósitos do Museu Arqueológico de Manisa estavam a transbordar — não havia onde expor as peças provenientes das escavações em curso. Em segundo lugar, a cidade situa-se no cruzamento das rotas turísticas Istambul — Esmirna e Bergama — Denizli, e nas proximidades encontra-se a antiga Tiatira, uma das sete igrejas apocalípticas do Novo Testamento. A iniciativa partiu de Kefayettin Ez, então presidente da Comissão de Cultura e Turismo da Assembleia Provincial de Manis. A 4 de setembro de 2006, o terreno foi oficialmente atribuído ao futuro museu.
O concurso para a restauração teve início em 2007, com um orçamento total anunciado de 2,1 milhões de liras. Mas o estaleiro de construção reservava uma surpresa desagradável: assim que o reboco foi removido das paredes, verificou-se que o edifício tinha-se alterado de tal forma ao longo de décadas que se tornou irreconhecível e que o projeto aprovado já não era adequado. Os peritos técnicos elaboraram um relatório separado e os conselhos de conservação exigiram novos planos. No final, foi necessário desmontar o segundo andar, repetir o concurso, e a epopeia de seis anos só terminou em maio de 2012, com um custo final de 1 537 897 liras. A 18 de maio, o museu abriu as portas ao público e, a 6 de agosto de 2012, foi solenemente inaugurado pelo ministro da Cultura e do Turismo, Ertuğrul Günay.
Arquitetura e o que ver
O complexo museológico está organizado como um conjunto de edifícios independentes num jardim comum: o próprio edifício de exposições, o edifício administrativo e um armazém separado. O próprio edifício de exposições é de um único piso, de planta retangular, com uma área coberta de 650 m². No jardim, há uma exposição ao ar livre com 1250 m², onde os artefactos podem ser admirados sob o céu do Egeu. Externamente, o edifício tem um aspeto sóbrio, quase ascético, com a sua característica alvenaria de pedra e janelas simples e ritmadas — uma lembrança de que 1932 foi uma época da República incipiente, em que a estética utilitária era mais valorizada do que os ornamentos.
No interior, a exposição divide-se em duas grandes secções — arqueologia e etnografia — e, dentro do espaço etnográfico, destaca-se uma secção especial, «Arasta», dedicada ao artesanato e ao comércio.
Secção arqueológica
O eixo temporal da secção estende-se desde a Idade do Bronze até ao Império Bizantino. À entrada, os visitantes são recebidos por fósseis provenientes das minas de carvão de Soma, com cerca de 18 a 11 milhões de anos — peças que transportam imediatamente a conversa para uma escala geológica. Mais adiante — ídolos de mármore e artefactos de pedra de Kulaksyzlar, da época do Calcolito, silhuetas delicadas, quase esquemáticas, que lembram as primeiras estatuetas das Cíclades.
Um lugar especial é ocupado pela cerâmica da cultura de Yortan, descoberta no início do século XX pelo engenheiro francês Paul Godin na aldeia de Bostanci (antigo nome — Yortan), perto de Akhisar. Estes vasos pretos e cinza-acastanhados com o característico bico em forma de bico de pássaro são uma espécie de marcador da época da Idade do Bronze Antiga da Anatólia Ocidental, e é precisamente aqui que podem ser vistos no seu contexto original.
O período da Lídia está representado por ouro e prata provenientes de sepulturas tumulares. Ao lado, encontram-se cinco lequitos áticos dos séculos V–IV a.C.: dois vasos com cenas mitológicas e três com palmetas, um trabalho delicado em figura negra e laca negra, que nos lembra que a costa do Egeu fazia parte do mundo grego. As joias da secção são uma estatueta de ouro de um carneiro da aldeia de Gökçeler e o «Relevo do Jovem» (Gökçeler kabartması) da época arcaica, encontrado no mesmo local. Trata-se de uma obra lacónica, mas surpreendentemente viva, na qual um rosto jovem olha através de vinte e cinco séculos.
As épocas romana e bizantina são representadas por cerâmica, vasos de vidro, unguentários (frascos para incensos), artigos de metal, ossários e joias. Quatro inscrições latinas — estelas honoríficas e funerárias — permitem ler os nomes dos cidadãos de Tiatira, há muito desaparecidos. Uma vitrina separada é dedicada às moedas: desde a época arcaica até ao período otomano, com especial destaque para as moedas cunhadas em Tiatira.
Secção etnográfica e Arasta
A etno-grafia começa com moedas seljúcidas e otomanas, seguidas de um Alcorão do século XVIII, manuscritos otomanos, firmanes sultanais e azulejos caligráficos — hüsen-i hat. Selo do município de Akhisar, cerâmica de Çanakkale, trajes tradicionais masculinos e femininos, caftans, tapetes e joias — tudo isto retrata a vida quotidiana desta pequena cidade provincial da região do Egeu. Nas vitrines com utensílios domésticos, encontram-se jarros de vidro, louça de café, acessórios de hamam e bordados feitos à mão. Uma secção separada é dedicada à iluminação e às armas: lamparinas a óleo, pistolas, espingardas e sabres de vários tamanhos.
O coração da etnografia é a secção Arasta. Aqui é apresentada a cultura do tabaco dos séculos XIX e XX, a principal atividade da região: caixas para prensar os maços, agulhas para enfiar as folhas, enxadas e pulverizadores. Ao lado, encontram-se os instrumentos dos funileiros, dos seleiros e dos mestres dos faetões e carroças puxadas por cavalos de Akhisar. Uma vitrina especial, «Keçeci Orhan», é dedicada ao feltineiro local Orhan Patoglu e à sua oficina: os próprios feltros, os capotes de pastor (capas) e as ferramentas com que trabalhou durante décadas.
Factos interessantes e lendas
- O edifício foi construído a pedido da mãe — um caso raro em que uma construção monumental foi inicialmente concebida como um «monumento ao filho». O Hospital Ali Şefik tornou-se uma forma de memória em vez da habitual lápide.
- Na inauguração de 2012 participou o atual ministro da Cultura e do Turismo, Ertuğrul Günay — a inauguração formal ocorreu a 6 de agosto, mas o grande público já tinha comparecido a 18 de maio, no Dia Internacional dos Museus.
- Inicialmente, a exposição apresentava 1051 artefactos; em 2019, o número reduziu-se para 689 — parte dos objetos foi enviada para depósitos científicos e para restauro, libertando espaço para os melhores exemplares.
- A cerâmica da cultura Yortan, orgulho do museu, foi descoberta pelo engenheiro ferroviário Paul Godin: ao construir a linha Izmir-Kasaba no início do século XX, ele conduzia, em paralelo, escavações arqueológicas e levou parte dos achados para a França.
- A transformação do edifício de hospital em escola, depois em residência de professores e, finalmente, em museu refletiu toda a história social de Akhisar no século XX: da medicina do início da República à educação e, por fim, à cultura.
Como chegar
Akhisar é uma pequena cidade na província de Manisa, a cerca de 90 km a nordeste de Izmir e a 55 km a sul de Bergama (a antiga Pérgamo). Para o turista de língua russa, o mais conveniente é voar para o Aeroporto Internacional Adnan Menderes de Izmir (ADB): os voos diretos de Istambul demoram cerca de uma hora, e no verão há voos charter sazonais a partir de Moscovo. A partir do aeroporto, pode-se alugar um carro e chegar pela autoestrada E87/D565 em cerca de 1 hora e 20 minutos.
A segunda opção é o comboio suburbano İZBAN e os autocarros interurbanos de empresas como a Pamukkale, a Kamil Koç e a Metro Turizm: entre Izmir e Akhisar, os autocarros circulam várias vezes por hora, a viagem demora entre 1,5 a 2 horas e o bilhete custa normalmente algumas centenas de liras. Se planeia uma viagem combinada com Pérgamo, faz sentido alugar um carro por um dia: Pérgamo — Akhisar — Tiatira — Sardes formam um itinerário intenso, mas lógico. O museu fica em frente às escavações de Tiatira, na parte central da cidade, a cerca de 10 minutos de táxi da estação rodoviária (Otogar).
Dicas para o viajante
A melhor altura para visitar é a primavera (abril–maio) e o outono (setembro–outubro): o sol do Egeu ainda não é intenso e é agradável contemplar a exposição ao ar livre no jardim do museu. No verão, o termómetro ultrapassa frequentemente os +35 °C, e mesmo um breve passeio pelas ruínas de Tiatira, em frente, pode ser cansativo. No inverno, a chuva e o vento tornam a cidade menos fotogénica, mas, em contrapartida, quase não há turistas.
Reserve 1,5 horas para o museu propriamente dito — isso será suficiente para percorrer tranquilamente ambas as secções e o Arastus, ver o «Relevo do Jovem» e o ouro da Lídia, e examinar a coleção de moedas de Tiatira. Acrescente mais uma hora para a zona antiga em frente, onde se podem ver vestígios da colunata, da basílica e da rua comercial. Para um visitante de língua russa, habituado às dimensões do Hermitage ou do Museu Pushkin, a atmosfera será diferente, mais próxima dos museus regionais da Rússia: compacto, silencioso, com etiquetas detalhadas em turco e inglês. É útil conhecer antecipadamente alguns termos-chave em turco: müze — museu, arkeoloji — arqueologia, etnografya — etnografia, sikke — moeda, kabartma — relevo.
Normalmente, é permitido fotografar nas salas sem flash nem tripé, mas, por precaução, confirme com o guarda. À entrada há uma pequena loja com catálogos e lembranças — um pormenor agradável para quem quer levar consigo um pedaço de Akhisar. Não deixe de visitar o antigo bazar da cidade, a poucos minutos a pé: Akhisar é famosa pelas azeitonas (aqui produzem-se algumas das melhores azeitonas de mesa da Turquia), e a «siyah zeytin» local é um excelente souvenir gastronómico. Leve consigo água, calçado confortável para passear pelas escavações de Tiatira e um lenço leve para as mulheres — será útil se quiser entrar na mesquita vizinha de Ulu-Cami, do século XIV. O Museu de Akhisar é pequeno, autêntico e rico; não pretende ter o brilho de uma capital, mas proporciona uma sensação rara de ligação direta com a terra onde, ao longo de três mil anos, se sucederam os hititas, os lídios, os gregos, os romanos, os bizantinos, os seljúcidas e os otomanos — e cada uma dessas épocas deixou aqui a sua marca, que hoje pode ser vista com os próprios olhos.